Category Archives: Política

Em defesa da palavra: NEGRA

Em defesa da palavra: NEGRA

Reativo o blog para postar um pequenino texto que escrevi inspirada em um texto do Eduardo Galeano sobre a defesa das palavras, em  uma aula. Eis minha defesa da palavra NEGRA!

Desde que nasci, me chamaram “negra”. “Isso não é para você, negra”, “cuidado para não te confundirem com ladrão, negra”, “escolha uma profissão de menos destaque, negra”. E me chamando negra, tentaram me convencer que havia algo de pejorativo, que era normal “denegrir” a imagem de alguém a relacionando com a raça negra. Mas pensemos por um segundo o inverso. “Denegremos” as imagens para torná-las mais belas, acreditemos que o black power tem poder de verdade. Ressignifiquemos a palavra “negra” para que eu (e todas as negras) não sejamos mais “as suas negas” para que nos ternemos as negras (com poder negro) de nós mesmas.

Por um mundo com mais vibradores

Por um mundo com mais vibradores

Eu tenho um vibrador. Sim, um vibrador, aquele aparelhinho em formato fálico que, ao ser ligado, vibra em diferentes intensidades. Sim, aquele usado para se masturbar. AI MEU DEUS, ela disse “se masturbar”? Sim, disse. E digo mais: eu tenho um vibrador e me masturbo com ele quase todos os dias.

Pode parecer uma perversão para a maioria das pessoas que vão ler isso aqui, mas eu me masturbo. Ao contrário da maioria dos homens, não comecei a me masturbar ao 13, 14 anos. Descobri o prazer da auto-descoberta depois que perdi a virgindade, exatamente porque o meu parceiro me masturbou antes de transar. Aí eu pensei: poxa vida, se ele pode me dar prazer apenas com a mão, por que eu não posso também? No começo, confesso, minhas tentativas foram meio frustradas. Não foi tão legal quanto eu imaginava  e, em muitas situações, eu, ao invés de sentir prazer, me senti incomodada. Mas eu sou brasileira e não desisto nunca. Comecei, antes de me masturbar, a ver filminhos pornôs, daqueles curtinhos, só pra dar “uma animada”. Aí, quando eu ia me masturbar, a coisa já tava meio caminho andado, saca?

Mas eu senti que podia mais. Sentia que eu podia me dar um prazer maior. E fui me descobrindo. Não foi fácil: rola uma vergonha, rola medo, rola de tudo. E isso que chamam por aí de tabu. Mas eu resolvi que queria me descobrir, descobrir meu corpo. E descobri o que é sentir prazer comigo mesma, e descobri o que eu gosto e o que eu não gosto. E descobri que descobrir meu próprio corpo é, necessariamente, saber dizer ao meu (minha) parceir@ o que eu quero, o que eu gosto, como eu gosto. Poxa, por que só o homem pode saber o que gosta?

Não, ninguém me ensinou sobre o meu próprio corpo. Mas, estou certa, que meus primos e amigos homens sabiam muito bem como fazer, porque eles podem fazer. Porque com o homem não é tabu. Porque ao homem, o prazer é permitido.

Então, o que eu quero dizer é: que eu quero lutar por um mundo com mais vibradores e com menos tabus. Porque o meu vibrador é uma delícia, meu bem. E descobrir diferentes prazeres também. E homens, parem de ser chatos e machistas: vocês também só ganham com o meu vibrador e o meu auto-conhecimento. Porque eu sei que o sexo em que os dois estão felizes, em que eu não esteja fingindo um orgasmo, em que o meu gemido de “gostoso” seja real é muito mais gostoso do que transar com uma boneca inflável de carne e osso. Eu também tenho o direito de gozar, meu bem!

O meu vibrador, agora, é um amigo inseparável. E nem me venham com preconceito. Ele é lindo e me dá prazer. E daí?

O feminismo e suas divergências

O feminismo e suas divergências

 

feminismo

Em  2011 eu cheguei a uma conclusão: Sou feminista e vou lutar pelo direito das mulheres, porque a luta das mulheres muda o mundo! Sempre tive em mente que ficar só na luta feminista não era o suficiente, acredito que lutar pelo feminismo é imprescindível, mas sempre achei que me formar somente nessa pauta seria insuficiente e que a militância no movimento social é muito necessária. Se você me perguntar se é difícil militar na pauta feminista e no movimento estudantil geral, eu vou responder que é sim muito difícil.. Mulheres e LGBT’s tem dupla jornada militante e é sempre muito cansativo, mas todo o esforço vale a pena. O feminismo é necessário e se nós mulheres não lutarmos por ele, ninguém mais vai lutar!

Por ser uma militante feminista, tenho que ler sobre muitas coisas, conhecer diversas linhas do feminismo e difundi-lo da melhor maneira possível. É preciso deixar claro que dentro do feminismo não existe uma verdade absoluta, existem diversas linhas de pensamento feminista, diversas ações e diversas opiniões.  Acho que o movimento é incrível por causa disso, por ter uma variedade infinita de linhas e pensamentos, mas infelizmente também existem conflitos entre as feministas. Já cansei de ver brigas entre mulheres que defendem linhas diferentes e os argumentos são os mais absurdos “você é feminista liberal, não pode falar nada” ou “essas minas do feminismo radical são umas loucas” ou “essas marxistas insuportáveis se acham donas da verdade”. Gente, parem com isso!!! Não vou ser hipócrita e falar que tenho acordo com todas as linhas de feminismo (o que é impossível, né?), mas não posso aceitar ver o desrespeito entre nós mesmas!

Tem sido bem cansativo ler os comentários e ouvir o que algumas meninas falam do meu coletivo, mas tudo bem, não vou mudar a minha linha de pensamento por causa disso. O problema é a partir do momento em que a crítica está acima da feminismo2luta. Divergências a parte, o que é mais importante é que todas nós lutemos pelo feminismo! Temos que difundi-lo e fazer com que todas as mulheres o conheçam, independente da linha que seguimos, pois nem todas as mulheres sabem que são oprimidas.. ou sabem, mas tem vergonha de admitir. Só com unidade nós vamos acabar com o machismo e fazer com que as mulheres tenham direitos iguais aos homens e não sejam oprimidas na rua por andarem com uma saia curta, por exemplo. Só com unidade é que vamos barrar o Estatuto do Nascituro. Só com a unidade é que vamos legalizar o aborto. Só com a unidade é que vamos quebrar as correntes que nos prendem.

Picuinhas tem sido mais importantes que a luta diária e isso não está correto. Não existe uma verdade absoluta na luta feminista, por isso estou ao lado de todas e todos que querem difundir a pauta e que sabem que só lutando é que vamos conseguir acabar com a opressão. O que importa é que você some à luta,  independente se é radical, marxista, liberal, lgbt, homem, transexual.. Enfim, o que nós feministas precisamos é de mais pessoas na luta, e não colocar acima dela divergências que não somam nada a nós. Respeitemos a todas e todos que acreditam no feminismo, mesmo que não haja acordo completo em tudo o que um ou outro diz. À luta, companheirxs!

p.s.: Sei que em alguns casos as divergências são muito grandes, como na questão da transexualidade. Existem mulheres que são contra trans participarem das reuniões auto-organizadas, existem outras que são a favor (esse pra mim é o exemplo mais clássico, mas também o melhor para apresentar as divergências entre as feministas). Porém, tanto as feministas que são contra quanto as que são a favor conseguem sim construir em unidade atividades feministas e conseguem chegar a um consenso. Não quero que divergências não existam, muito pelo contrário pois as divergências são importantes para construir a luta, mas acredito que existam pautas unitárias e que lutar por elas é mais importante do que julgar a colega lutadora que pensa diferente de você 

Ser mulher. Negra. Latino-americana. Ou: hoje é 25 de julho

Ser mulher. Negra. Latino-americana. Ou: hoje é 25 de julho

“Ser negra não é questão só de cor. É questão política.” Foi assim que a minha mãe me ensinou que me afirmar como negra era um importante passo político para concretizar o meu respeito e o meu orgulho pelas minhas raízes. Sim, essas raízes crespas, duras, fortes, grossas. Essas raízes que me deixaram com lábios grossos e ancas enormes. Essas raízes que achatam o nariz, escurecem a pele, nos tornam mais fortes. Demorei a entender o que era ser negra. Só sabia, desde pequena, que eu era diferente. Diferente das minhas primas, loiras (descendentes de italianos). Diferente dos coleguinhas de escola (particular), de cabelos lisos. Diferente até da minha mãe, branca. Diferente do padrão da tevê, diferente de tudo que achavam bonito. Diferente da Barbie. E foi preciso muito tempo pra descobrir que, diferente dessas pessoas todas, eu era igual a Carolina de Jesus, a Chica da Silva, a tantas lindas negras, negras lutadoras.

Hoje é dia da mulher negra latino-americana e caribenha. E, apesar de ter demorado, apesar de já ter alisado o meu cabelo, apesar de já ter desejado ser branca, ser bonita como as brancas, ser aceita como as brancas, hoje eu me orgulho e me emociono em dizer que sou negra. Esse é o meu dia, dia de tantas mulheres que tem que enfrentar o preconceito racial todos os dias. Dia de mulheres que tem que batalhar pelos seus direitos de mulher, pelos seus direitos de negra, pelos seus direitos de ser humano. Dia daquelas que, por seus seios fartos ou sua boca “carnuda”, são consideradas objeto sexual ambulante. Dia daquelas que nos morros e favelas tem que enfrentar o extermínio da juventude negra, de seus filhos, irmão, netos. Dia das que já se foram, mas foram lutando. Das que nem puderam lutar. Das que virão, e muito ainda terão que enfrentar. O dia de luta, mas não de luto. Porque “negra é a raiz da liberdade”.

E, dessas mãos pretinhas que agora escrevem esse texto, vem o pedido: não se esqueçam dessas mulheres. Hoje é um dia importante, mas nos outros 364 elas também precisam de visibilidade. As mulheres negras, das favelas, dos morros, as que choram seus mortos pelo BOPE, as que choraram seus mortos na Candelária, as que trabalham 12, 14, 16 horas por dia e ainda precisam cuidar da casa, elas são a fonte de inspiração da minha vida. Porque elas mostram que nossas raízes são crespas, e são fortes.