Author Archives: Tatiane Ribeiro

Sobre as mulheres negras: por que tanta solidão?

Sobre as mulheres negras: por que tanta solidão?

Desde a adolescência, eu sempre senti que era preterida entre as colegas de colégio. Os meninos sempre preferiram sair e “ficar” com elas. Eu sempre fui a melhor amiga dos meninos, mas nunca a mina que eles queriam para ficar, namorar, construir um relacionamento. Pudera, quando criança, aguentei os “amigos da onça” que, todo ano, eram a mesma coisa: sempre ganhava um pacote de Bombril, que era pra “fazer implante no cabelo”. Sempre fui a engraçada, a simpática, a “bróder”. Lembro de um período em que eu era “um menininho”, era como eles. Nessa época, eles gostavam mesmo era de me pedir ajuda com as outras meninas. Mas eu não era como elas, eu era como eles.

Precisou muito tempo, e muita militância, pra eu entender porque eu era como os meninos. Porque eu não podia ser como as meninas. Porque eu não era mulher, eu era mulher negra. Isso faz tanta diferença no imaginário masculino que, mais tarde, quando eu comecei a ter seios maiores do que o da maioria das meninas da  minha idade, quando comecei a “encorpar”, como dizem, comecei a ser vista como símbolo de sexualidade. Sabe como é: mulher negra de pele mais clara, a tal da “mulata”, desperta nos homens seus instintos mais machistas. Comecei a ser vista como a gostosa, vários meninos “me queriam”, mas apenas pra pegar, passar a mão, e ir embora.

Demorei a entender também porque ninguém queria estar comigo por mais de uma noite, um rolê, uma saída. Iam comigo ao cinema, mas não queriam sair de mãos dadas. O que eu fiz de errado então?

Nada. Não fiz nada de errado. Nem nenhuma de vocês, mulheres lindas, rainhas do cabelo carapinha. Nosso único “erro”, para os homens, é sermos negras. Se de pele menos escura somos, nossa tarefa é o prazer imediato. Se de pele mais escura, nem pra isso servimos. Para namorar? Só as mulheres brancas.

E isso não é só sobre homens brancos não, sabe? Os homens negros nunca me quiseram. Nem pro prazer, pra ser sincera. Posso contar nos dedos quantos deles se interessaram por mim (mesmo numa festa). Sabe, sempre despertei mais interesse nos caras brancos.

Não a toa, meus relacionamentos mais duradouros foram, com exceção de um, com caras brancos. Não me julguem, irmãs, porque a culpa não é minha. Não tive lá grandes escolhas, com não tem quase nenhuma mulher negra: a solidão me assolou por muito tempo, e os caras negros não tavam nem aí pra isso.

Não gosto do termo palmitagem não. Pra quem não sabe o que é, eu explico: chamam de palmiteiro o cara negro que só sai com mulheres brancas. Não gosto porque acho que é muito complicado julgar, acho que rola um ataque que acaba não indo a fundo na questão. Mas, irmãos pretos, me desculpem: a culpa é de vocês que tantas manas botam o dedo na cara de vocês. Vocês nos usaram, nos comeram, nos largaram, nos deixaram sós pensando que não tínhamos o direito de sermos amadas. Agora, aguentem. Porque aprendemos que não somos nós a erradas. Que somos lindas assim, de cabelo pra cima, de black, de tranças. Que somos merecedoras de amor como qualquer outra mulher.

Manas, não julguem nós que amamos um homem branco (hoje, eu namoro um cara branco, por exemplo). Nossas escolhas (se é que podemos chamar de escolhas, já que fomos a vida toda rejeitadas) não nos fazem menos negras, menos solidárias, menos lutadores. Manos, não nos joguem na cara que nós também não ficamos com homens negros: vocês nos largaram primeiro. E a todas as lindas negras que estão num relacionamento interracial, queria dizer para vocês que vocês são foda. Que são lindas, guerreiras e lutadoras, tanto quanto qualquer outra preta. Porque nós, sim nós, conseguimos romper esse silêncio enclausurador da solidão e dizer: TAMBÉM QUEREMOS SER AMADAS.

Mas, se um dia, o cara ao lado de vocês achar que é mais por “pegar uma mina preta”, não aceite. Somos muito. Não precisamos ficar ao lado de pouco.

Nosso amor, nossa solidão, nossa luta tem que nos unir. E não nos dividir. Somos as mesmas, e nossas histórias são bem parecidas (eu sei que muitas se identificaram com a minha história, com a minha solidão). Vamos juntas lutar para que cada vez menos irmãzinhas precisem passar pelo mesmo?

E aos caras, pretos ou brancos, que acham que podem nos julgar: RESPEITA AS MINA. Somos fodas. E não vamos aceitar mais caladas nem a solidão, nem o julgamento.

Em defesa da palavra: NEGRA

Em defesa da palavra: NEGRA

Reativo o blog para postar um pequenino texto que escrevi inspirada em um texto do Eduardo Galeano sobre a defesa das palavras, em  uma aula. Eis minha defesa da palavra NEGRA!

Desde que nasci, me chamaram “negra”. “Isso não é para você, negra”, “cuidado para não te confundirem com ladrão, negra”, “escolha uma profissão de menos destaque, negra”. E me chamando negra, tentaram me convencer que havia algo de pejorativo, que era normal “denegrir” a imagem de alguém a relacionando com a raça negra. Mas pensemos por um segundo o inverso. “Denegremos” as imagens para torná-las mais belas, acreditemos que o black power tem poder de verdade. Ressignifiquemos a palavra “negra” para que eu (e todas as negras) não sejamos mais “as suas negas” para que nos ternemos as negras (com poder negro) de nós mesmas.

O futebol de gravata

O futebol de gravata

Peço licença para quem já conhece, mas vou fazer aqui um jabá para o mais novo blog amigo: Sampa Midnight, da queridíssima Paula Kaufmann!

E para fazer o jabá completo, colocamos aqui um texto mais do que necessário sobre a palhaçada do STJD, que rebaixou a Lusa! Tapetão a favor do Fluminense não dá!!!! (pegamos o texto do blog dela)

Qualquer um que goste de futebol não tem como estar feliz neste fim de tarde. Hoje o Superior Tribunal de Justiça Desportiva decidiu pela punição de retirada de 4 pontos da Portuguesa após o fim do campeonato, decisão que faz com que a Portuguesa seja rebaixada, salvando o Fluminense de jogar a série B em 2014. A punição diz respeito à entrada em campo do jogador Hérverton por 13 minutos no último jogo do campeonato, em uma partida que não colocava nada em jogo. A Lusa estava praticamente garantida na série A e o Grêmio com vaga certa na Libertadores.

O advogado que representava a Portuguesa, indicado pela CBF, não notificou a direção do clube nem a comissão técnica da decisão de dois jogos de suspensão que o jogador deveria cumprir. Osvaldo Sestário, que representa 43 clubes brasileiros e participa de 25 a 30 audiências semanais, tem relações de muitos anos com a CBF que parece ter patrocinado boa parte de sua carreira. Ele costuma representar clubes que não tem um setor jurídico consistente, sempre aqueles que tem muito menos recursos que os grandes times brasileiros.

Primeiramente, a justiça não é uma ciência exata. É preciso analisar o caso não simplesmente aplicando as palavras da lei, mas entendendo o que faz com que o futebol perca mais. A pena recebida prejudicou muito mais a Portuguesa do que o Grêmio no jogo de domingo. Como teria agido o time de má fé se colocou um atleta indiferente (para não dizer risível) para jogar 13 minutos em um jogo que não valia nada e estava terminando em empate?

Em segundo lugar, me recuso a acreditar que este “ruído” de comunicação entre o advogado e a Portuguesa tenha sido acidental. No futebol brasileiro, o acaso é sempre a última alternativa. A cartolagem e a corrupção correm soltas pelos vestiários (e não isento a Portuguesa disso!). Se não estivesse envolvido, como tanto foi bradado pelo Fluminense, porque o time se declarou como parte interessada e teve seu advogado depondo no tribunal? E mais uma vez o time carioca decide seu destino fora do gramado.

A indignação que sinto não é somente pelo fato de ser uma torcedora lusitana e ter sofrido junto com cada suor do meu time a luta para seguir na primeira divisão. A tristeza é pela constatação – que não é de hoje, mas que só se confirma – de que o futebol não é o esporte dos brasileiros, mas de alguns brasileiros. Daqueles que, engravatados, decidem no aperto de mão e na mala cheia de dinheiros o futuro do esporte mais popular do Brasil.  Enquanto a cartolagem e os grandes poderosos decidirem os rumos do futebol, ele se tornará cada vez mais triste.

Enquanto aguardamos, sem esperança, o julgamento do recurso da Portuguesa, a minha certeza é de seguir ao lado da torcida lusitana que tomou a Paulista neste fim de semana e dos padeiros que boicotam os patrocinadores da CBF. Que os novos tempos ecoem também dentro das salas dos tubarões do futebol brasileiro.

Juntas contra o estatuto do nascituro e pela legalização do aborto!

Juntas contra o estatuto do nascituro e pela legalização do aborto!

Queria usar o espaço do blog pra divulgar uma atividade sensacional que vai acontecer essa semana! Mando aqui o texto originalmente publicado no site do Juntos!:

No próximo dia 25 de setembro, em São Paulo, o Juntas vai organizar um ato-debate muito importante, sobre o estatuto do nascituro e a legalização do aborto, integrando a Jornada Nacional contra o Estatuto do Nascituro. Marque na agenda e não perca!

Contaremos com as presenças, já confirmadas, de:
Clara Averbuck (escritora e blogueira)
Laerte (cartunista)
Rosângela Aparecida Talib (Católicas pelo Direito de Decidir)
Profa. Dra. Carmen Simone Grilo Diniz (Faculdade de Saúde Pública da USP)
Luciana Genro (ex-deputada federal autora do projeto que isenta de punição o aborto em caso de feto anencéfalo – PL 4834/2005).

Saudações já confirmadas:
- Profa. Dra. Elizabete Franco Cruz (Obstetrícia USP)
- Feminismo sem Demagogia
- Feminismo na Rede
- Moça Você é Machista
- O machismo nosso de cada dia
- Movimento Primavera

Informações úteis:
Data: 25/09
Hora: 18h30
Local: Anfiteatro Paula Souza da Faculdade de Saúde Pública da USP (próximo ao metrô Clínicas)
Evento no Facebook: fb.com/events/1405441833006099 (confirme presença!)

Haverá transmissão ao vivo no site do Juntos!

A atividade é aberta para tod@s!