Author Archives: Ariane Machado

A leveza de ser sozinha e os horizontes a conquistar

A leveza de ser sozinha e os horizontes a conquistar

Há uns dias tive um insight: quero correr o mundo! Talvez isso tenha um pouco a ver com o acidente grave que sofri no meio do ano passado. Dizem que esses traumas mudam a cabeça da gente. Fazem a gente querer viver. Não é que eu não quisesse viajar por aí antes disso, mas sempre fui muito dependente de vontades alheias. Vejam, o insight na verdade foi que, pela primeira vez desde que me reconheço no espelho, estou bem sozinha. Bem o suficiente pra andar por aí, independente do que quer que seja. Eu escolhi viver assim.

Anos atrás uma terapeuta me disse, após o fim de um namoro, que eu precisava “me bastar”. Muito bonito o termo, mas foi dureza à época. Nós mulheres somos construídas na dependência de outras pessoas, normalmente pais, irmãos, namorados, maridos, amigos, homens. São eles nossos protetores, os que guardam o “sexo frágil” das feiuras do mundo. No meu caso, ainda que há tempos não me exija mais estar com alguém, demorei até conseguir me sentir verdadeiramente plena sozinha. E sozinha não é solitária! Eu gosto de gente; as pessoas me dão alegria. Só que não preciso delas (nem deles) pra estar feliz.

A decisão (ou o insight) de correr o mundo veio acompanhada de muitas dúvidas, é claro. Como gastar pouco sem ser assediada pedindo carona? Onde posso dormir em segurança? E se roubarem minhas coisas? Ora, a minha emancipação pessoal não mudou o mundo machista em que vivemos, infelizmente. Uma mulher viajando sozinha é sempre mais “fácil” do que um homem. Ainda assim, não é que isso tudo não importe, é que hoje eu me sinto feliz por ser quem eu sou. Não me falta nada. Sou uma mulher livre. Quero ver o mundo com os meus próprios olhos, tocá-lo com minhas próprias mãos e caminhar por ele com minhas próprias pernas – que vão ainda melhor depois do acidente, obrigada.

Não sei quanto tempo isso de ficar sozinha vai durar. Talvez uns meses, uns anos, talvez uma vida toda. Não tenho mais medo de “ficar pra titia”. Eu sou a mulher da minha vida e isso me sustenta. Por agora fico com a meta de, não só contemplar os horizontes, mas chegar até eles. Seja como for, seja com quem for.

O passo adiante que o movimento negro precisa dar

O passo adiante que o movimento negro precisa dar

Ontem participei da organização de um debate sobre a Desmilitarização das Polícias e da Política. No centro da latuff_genocidiodiscussão foi posta uma questão que há meses se cochicha ao pé do meu ouvido. Não se pode falar em violência policial sem rasgá-la transversalmente com a perspectiva racial. Na TV, nos jornais, nos condomínios e nas corporações o “dito popular” que corre é ‘bandido bom é bandido morto’. Não menos popular é o mito (sic) do Preto Ladrão. Nada deveria ser surpreendente então o dado de que pelo menos dois terços dos mortos pela polícia em 2013 eram negros. O racismo que cada um esconde carrega consigo legitima tais assassinatos.

Contudo, a tomada de consciência da negritude não é óbvia. Nem um olhar mais atento no próprio espelho basta. É aqui que entra o movimento negro. Ou deveria entrar. Os jovens negros perseguidos pela polícia por serem considerados um “biotipo suspeito” precisam tomar consciência da sua cor, da sua origem, da sua história. Precisam se empoderar da luta pela igualdade racial e serem também os agentes da mudança.

As jornadas de Junho apontaram para uma parte dessa juventude uma alternativa a toda violência promovida pelo Estado no cotidiano da periferia. A tática black bloc foi adotada por muitos jovens brancos e de classe média, mas também foi o meio encontrado por jovens negros  e pobres para dar o seu recado e responder aos tapas na cara e enquadros humilhantes da polícia. Não pretendo me debruçar sobre a crítica ao método violento, mas me atentar às razões para que esses jovens tenham mais referência numa via individualista, como o black bloc, em detrimento da organização coletiva.

Ora, por que não é o movimento negro a alternativa de luta para a juventude negra? Faço um debate muito fraternal e respeitoso com os históricos militantes da pauta racial. Mas tenho honestas dúvidas sobre a persistência na via institucional, principalmente tendo em vista toda a desconfiança com as instituições evidenciada por Junho. A juventude não espera mais que a resposta venha dos gabinetes. Não querem ser ouvidos, querem ser eles mesmos os transformadores das suas realidades.

Sendo assim, onde estava o movimento negro durante as jornadas de Junho se apresentando como alternativa de organização para esses jovens? Onde estava o movimento negro apontando que a violência policial tem cor e endereço? Onde estava o movimento negro empoderando essa juventude que sofre cotidianamente com a militarização das polícias e da política, pra que a luta fosse construída coletivamente?

Se não é o movimento negro que tem condições de apontar o recorte racial e classista da violência policial, quem será? É hora de darmos um passo adiante. Em ano de Copa do Mundo, a repressão vai ser a Lei e a resposta deve ser coletiva para ser forte. Queremos a juventude negra formulando conosco a agenda da desmilitarização, da saúde e da educação padrão FIFA, lutando ombro a ombro nos próximos Junhos! Vamos Juntos, negras e negros, na luta por outro futuro!