Sobre as mulheres negras: por que tanta solidão?

Sobre as mulheres negras: por que tanta solidão?

Desde a adolescência, eu sempre senti que era preterida entre as colegas de colégio. Os meninos sempre preferiram sair e “ficar” com elas. Eu sempre fui a melhor amiga dos meninos, mas nunca a mina que eles queriam para ficar, namorar, construir um relacionamento. Pudera, quando criança, aguentei os “amigos da onça” que, todo ano, eram a mesma coisa: sempre ganhava um pacote de Bombril, que era pra “fazer implante no cabelo”. Sempre fui a engraçada, a simpática, a “bróder”. Lembro de um período em que eu era “um menininho”, era como eles. Nessa época, eles gostavam mesmo era de me pedir ajuda com as outras meninas. Mas eu não era como elas, eu era como eles.

Precisou muito tempo, e muita militância, pra eu entender porque eu era como os meninos. Porque eu não podia ser como as meninas. Porque eu não era mulher, eu era mulher negra. Isso faz tanta diferença no imaginário masculino que, mais tarde, quando eu comecei a ter seios maiores do que o da maioria das meninas da  minha idade, quando comecei a “encorpar”, como dizem, comecei a ser vista como símbolo de sexualidade. Sabe como é: mulher negra de pele mais clara, a tal da “mulata”, desperta nos homens seus instintos mais machistas. Comecei a ser vista como a gostosa, vários meninos “me queriam”, mas apenas pra pegar, passar a mão, e ir embora.

Demorei a entender também porque ninguém queria estar comigo por mais de uma noite, um rolê, uma saída. Iam comigo ao cinema, mas não queriam sair de mãos dadas. O que eu fiz de errado então?

Nada. Não fiz nada de errado. Nem nenhuma de vocês, mulheres lindas, rainhas do cabelo carapinha. Nosso único “erro”, para os homens, é sermos negras. Se de pele menos escura somos, nossa tarefa é o prazer imediato. Se de pele mais escura, nem pra isso servimos. Para namorar? Só as mulheres brancas.

E isso não é só sobre homens brancos não, sabe? Os homens negros nunca me quiseram. Nem pro prazer, pra ser sincera. Posso contar nos dedos quantos deles se interessaram por mim (mesmo numa festa). Sabe, sempre despertei mais interesse nos caras brancos.

Não a toa, meus relacionamentos mais duradouros foram, com exceção de um, com caras brancos. Não me julguem, irmãs, porque a culpa não é minha. Não tive lá grandes escolhas, com não tem quase nenhuma mulher negra: a solidão me assolou por muito tempo, e os caras negros não tavam nem aí pra isso.

Não gosto do termo palmitagem não. Pra quem não sabe o que é, eu explico: chamam de palmiteiro o cara negro que só sai com mulheres brancas. Não gosto porque acho que é muito complicado julgar, acho que rola um ataque que acaba não indo a fundo na questão. Mas, irmãos pretos, me desculpem: a culpa é de vocês que tantas manas botam o dedo na cara de vocês. Vocês nos usaram, nos comeram, nos largaram, nos deixaram sós pensando que não tínhamos o direito de sermos amadas. Agora, aguentem. Porque aprendemos que não somos nós a erradas. Que somos lindas assim, de cabelo pra cima, de black, de tranças. Que somos merecedoras de amor como qualquer outra mulher.

Manas, não julguem nós que amamos um homem branco (hoje, eu namoro um cara branco, por exemplo). Nossas escolhas (se é que podemos chamar de escolhas, já que fomos a vida toda rejeitadas) não nos fazem menos negras, menos solidárias, menos lutadores. Manos, não nos joguem na cara que nós também não ficamos com homens negros: vocês nos largaram primeiro. E a todas as lindas negras que estão num relacionamento interracial, queria dizer para vocês que vocês são foda. Que são lindas, guerreiras e lutadoras, tanto quanto qualquer outra preta. Porque nós, sim nós, conseguimos romper esse silêncio enclausurador da solidão e dizer: TAMBÉM QUEREMOS SER AMADAS.

Mas, se um dia, o cara ao lado de vocês achar que é mais por “pegar uma mina preta”, não aceite. Somos muito. Não precisamos ficar ao lado de pouco.

Nosso amor, nossa solidão, nossa luta tem que nos unir. E não nos dividir. Somos as mesmas, e nossas histórias são bem parecidas (eu sei que muitas se identificaram com a minha história, com a minha solidão). Vamos juntas lutar para que cada vez menos irmãzinhas precisem passar pelo mesmo?

E aos caras, pretos ou brancos, que acham que podem nos julgar: RESPEITA AS MINA. Somos fodas. E não vamos aceitar mais caladas nem a solidão, nem o julgamento.

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