O passo adiante que o movimento negro precisa dar

O passo adiante que o movimento negro precisa dar

Ontem participei da organização de um debate sobre a Desmilitarização das Polícias e da Política. No centro da latuff_genocidiodiscussão foi posta uma questão que há meses se cochicha ao pé do meu ouvido. Não se pode falar em violência policial sem rasgá-la transversalmente com a perspectiva racial. Na TV, nos jornais, nos condomínios e nas corporações o “dito popular” que corre é ‘bandido bom é bandido morto’. Não menos popular é o mito (sic) do Preto Ladrão. Nada deveria ser surpreendente então o dado de que pelo menos dois terços dos mortos pela polícia em 2013 eram negros. O racismo que cada um esconde carrega consigo legitima tais assassinatos.

Contudo, a tomada de consciência da negritude não é óbvia. Nem um olhar mais atento no próprio espelho basta. É aqui que entra o movimento negro. Ou deveria entrar. Os jovens negros perseguidos pela polícia por serem considerados um “biotipo suspeito” precisam tomar consciência da sua cor, da sua origem, da sua história. Precisam se empoderar da luta pela igualdade racial e serem também os agentes da mudança.

As jornadas de Junho apontaram para uma parte dessa juventude uma alternativa a toda violência promovida pelo Estado no cotidiano da periferia. A tática black bloc foi adotada por muitos jovens brancos e de classe média, mas também foi o meio encontrado por jovens negros  e pobres para dar o seu recado e responder aos tapas na cara e enquadros humilhantes da polícia. Não pretendo me debruçar sobre a crítica ao método violento, mas me atentar às razões para que esses jovens tenham mais referência numa via individualista, como o black bloc, em detrimento da organização coletiva.

Ora, por que não é o movimento negro a alternativa de luta para a juventude negra? Faço um debate muito fraternal e respeitoso com os históricos militantes da pauta racial. Mas tenho honestas dúvidas sobre a persistência na via institucional, principalmente tendo em vista toda a desconfiança com as instituições evidenciada por Junho. A juventude não espera mais que a resposta venha dos gabinetes. Não querem ser ouvidos, querem ser eles mesmos os transformadores das suas realidades.

Sendo assim, onde estava o movimento negro durante as jornadas de Junho se apresentando como alternativa de organização para esses jovens? Onde estava o movimento negro apontando que a violência policial tem cor e endereço? Onde estava o movimento negro empoderando essa juventude que sofre cotidianamente com a militarização das polícias e da política, pra que a luta fosse construída coletivamente?

Se não é o movimento negro que tem condições de apontar o recorte racial e classista da violência policial, quem será? É hora de darmos um passo adiante. Em ano de Copa do Mundo, a repressão vai ser a Lei e a resposta deve ser coletiva para ser forte. Queremos a juventude negra formulando conosco a agenda da desmilitarização, da saúde e da educação padrão FIFA, lutando ombro a ombro nos próximos Junhos! Vamos Juntos, negras e negros, na luta por outro futuro!

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