Médicos, deixem de ser gordofóbicos. Ou: não aguento mais ouvir que não sou gorda

Médicos, deixem de ser gordofóbicos. Ou: não aguento mais ouvir que não sou gorda

Esse post começou porque eu perguntei para as pessoas da minha timeline do Facebook sobre o que eu deveria escrever. E aí surgiu a ideia: por que não pedir pras pessoas deixarem os gordos em paz?

Então, vamos começar com o seguinte: eu sou gorda. Sim, sou gorda. Não sou gordinha, fofinha ou estou alguns quilinhos acima do peso. E-U S-O-U G-O-R-D-A. E não, isso não deveria ser um problema, mas o mundo quer que seja. E me pressiona para que eu me sinta mal porque sou gorda. Até o ponto em que eu não queria olhar no espelho do teto de um motel porque sou o dobro do tamanho do meu namorado. E isso é errado. Ou querem me fazer acreditar que é.

Toda vez que eu vou ao médico, seja qual for, ele quer me convencer de que é um absurdo eu pesar o que eu peso e que isso faz mal a minha saúde. Aí eu vou, faço todos os exames e CABUM: qual não é a surpresa do médico gordofóbico ao descobrir que eu tenho todos os índices de tudo (açúcar, colesterol e o caralho) certinho? Pois é, seu moço, ser magra não é sinônimo de saúde. E ser gorda não é sinônimo de doença. MÉDICOS, DEIXEM SUA GORDOFOBIA DE LADO.

gaby-amarantos-a-estrela-da-capa-da-revista-tpm-de-agosto-carisma-simpatPorque aí, “em nome da saúde”, acontece o que está acontecendo com a linda da Gaby Amarantos. Sabe, eu me apaixonei por ela quando ela saiu na capa da TPM dizendo que não veste 38 e se sente sexy mesmo assim. E tá toda linda na capa, meu deus. Eu, sinceramente, pago um pau para gordas que não se rendem ao dito popular de que tem que ser magra e coisa e tal. Porque não é fácil não se render à pressão da sociedade.

Bom, ok, foto linda, entrevista que dá vontade de chorar e um desejo: ser como a Gaby Amarantos e aceitar a minha sensualidade a partir do que é o meu corpo. Mas aí vem a cagada, infelizmente: por causa da pressão social e da fama e, em nome da saúde, a linda Gabyzinha se rendeu e foi parar no tal “Medida Certa”, programa do Fantástico que pretende mostra como ser gordo é feio e como só comer alface e viver de exercícios que te fazem infeliz é lindo e maravilhoso. Tentaram com os âncoras do programa, tentaram com o Ronaldo e agora é a vez de Gaby Amarantos, Preta Gil (outra linda doida varrida!), César Menotti (aquele que canta com o tal do Fabiano música sertaneja, sabe?) e o bonitinho do Porta dos Fundos, o Porchat (que NÃO É GORDO AINDA POR CIMA).

E tem direito até a liçãozinha de moral do que é certo e do que é errado:

É claro que eu não quero aqui dizer que está bom ter colesterol ou ácido úrico acima do aceitável. O que eu estou dizendo que o peso e a gordura nada dizem respeito sobre a saúde. É só olhar o caso da própria Gaby Amarantos: nos requisitos que dizem respeito, de fato, à saúde, ela está com o tique verdinho de “certo”. Agora, gordura e peso com errado. Mas me diz uma coisa: se ela está saudável, que que tem o peso dela?

O que não é o caso da Preta Gil, que está com o colesterol acima e com problemas no joelho. Acho que é importante estar saudável, ter uma alimentação diversificada e pensar que ainda temos muito a percorrer (então nada de explodir ou de ficar sem joelho pra seguir a caminhada). Mas não me venha com justificativas gordofóbicas para isso. Tem gente com menos de 60kg que tem colesterol alto (sim, eu conheço uma pessoa assim).

Queria a minha amada da capa da TPM de volta. Porque ela me dá força para não ter mais vergonha de me olhar no espelho do teto do motel. Porque ela me diz que não sou eu a errada quando meu pai de chamava de “gorda inútil que só sabe comer”. Porque ela me dizia que eu sou bonita, e não é “mesmo gorda”. Me dizia que eu sou “uma gorda bonita”. E que não há nenhuma ofensa em parte alguma dessa frase. Porque, no fim das contas, ela me dizia que eu também tenho o direito de ser feliz, de me arrumar quando quero, de me sentir bonita, de “paquerar”, de me sentir desejável, de exercer livremente a minha sexualidade, de ser o que eu sou e ponto.

Por favor, tirem a sua gordofobia da minha frente. Porque eu quero passar com a minha felicidade de ser assim, gorda, bonita, do jeito que eu sou. Obrigada.

17 Responses »

    • Carlos,
      Sua gordofobia e sua ignorância (me mandar calar a boca não vai me calar, meu bem) são espantosos.
      Sinceramente, não me importo nem um pouco com a sua opinião. Aliás, seria um favor você nem passar mais por aqui, porque ódio é uma coisa que eu dispenso.
      Se você acha feio, guarde pra você. A sua opinião, para mim, importa tanto quanto a opinião do Malafaia sobre as LGBTS. A única diferença é que, infelizmente, é deputado, e eu tenho que lutar todos os dias para que ele não seja mais e, assim, o mundo fique livre de um opressão como figura pública.
      Hatters gonna hate. É só isso que tenho a dizer.

    • Fofo é q o Carlos nem ao menos sabe usar pontuação… Meu bem, porque ao invés de você ficar apontando seu dedinho – provavelmente – magro pras “fuças” dos outros e dizendo como eles devem pensar e viver a vida deles você não vai estudar? Sério! Estudar abre a mente, te torna interessante e faz você repensar a SUA vida e não a dos outros, além de te dar base e educação para discutir e apontar seu ponto de vista. Olha bem pro mundo, evolui, meu filho! Ser gordo é natural, se aceitar do jeito que é, é lindo. Pena você não ver isso q a Tatiane, com uma sensibilidade imensa soube ver nela mesma. Todo mundo e lindo do jeito q é. O q importa mesmo e sermos saudáveis e boas pessoas, coisa q vc, Carlos, não é… Faltou educação e conhecimento. Tatiane, parabéns! O mundo precisa de mais pessoas como vc! =)

  1. Falou tudo!
    Eu, há alguns quilos atrás, toda a vez que ia ao(à) médico(a) [não por algum motivo específico, por rotina mesmo, porque eu sou dessas], ele(a), sem fazer exame nenhum, só de olhar para a minha cara me dizia “Seu problema minha querida é que você está gorda, vou te passar uma dieta mais saudável”
    MAIS SAUDÁVEL? ELE NEM SABE O QUE EU COMO!
    É culpa minha se eu engordo me exercitando e comendo salada, frutas e arroz integral enquanto as outras pessoas mantém o peso “ideal” comendo no McDonald’s regularmente? [o que diga-se de passagem eu não faço há 10 anos, porque sou do tipo vegetariana natureba].
    Aí, ia lá fazia todos os exames, dava tudo bem abaixo do normal para a minha idade [para a minha idade! Não que dava baixo porque eu tenho só 23 anos]. Eu tinha uma saúde que pessoas com 2/3 do meu peso [o "peso ideal"] não tinham.
    Aí os(as) médicos(as) diziam que estavam impressionados(as), me davam os parabéns e me mandavam emagrecer mesmo assim.

    Conclusão: por uma série de motivos que não vem ao caso eu fiquei tão de saco cheio que decidi entrar de regime [leia-se passar fome] ano passado e já perdi quase 20 quilos.
    E é impressionante a quantidade de gente que me parabeniza por ter “mudado para uma vida mais saudável”. Não importa se no começo eu tive até princípio de anemia porque não me alimentava direito, não importa se de gorda eu já tinha uma saúde que dava de 10 em qualquer um deles. Gordura é automaticamente assimilada com doença e magreza com saúde na nossa sociedade.

      • Olha, hoje eu sou feliz. E não é porque sou gorda. Como não seria feliz por ser magra.
        Hoje, sou feliz porque sou livre pra gostar do meu corpo e de mim do jeito que somos!
        Não to dizendo que é fácil. Ainda me dói quando me chamam de gorda nojenta por aí (já rolou, cara). Mas mais porque o mundo é uma merda do que porque meu corpo é uma merda. Meu corpo, do jeito que é, é lindo.

  2. Adorei o post! Concordo plenamente com vc! Um fato que me choca é aquela mocinha da novela das 21hs da globo. Uma moça tão bonita, gorda e estereotipada como a gorda virgem que ninguém quer. Ela que é tão bem resolvida com seu corpo, me admira que aceite esse papel. Parabéns pelo artigo.

    Abraços

  3. Concordo com tudo, mas discordo. Gaby faz a linha feliz mas já fez lipo na barriga, ou seja, passou de gorda para “mulherão”. Todo gordo diz que é feliz mas se agarra à esperança de emagrecer. Sou gorda, mas sou fruto de uma sociedade que me impede de ser feliz por me lembrar diariamente que sou, e estou, fora dos padrões.
    Sou o tipo de gorda que não encontra roupas nos grandes magazines e nem em lojas de roupas especializadas. Todos dizem que “meu rosto” é lindo, mas ninguém namora comigo. Todo mundo me acha legal, sou a amiga “mais mais”, só que ninguém presta atenção em mim. No trabalho, as magras me olham com nojo e as gordas com inveja. Para as mulheres gordas, encontrar alguém bonita e menos gorda do que elas é a morte. Elas passam a te olhar com uma inveja injustificável, pois estamos TODAS no mesmo barco.
    No final de tudo, legal ser gorda como a Preta Gil e a Gaby, mas ser a gorda “normal”, sem lipo, realmente é para poucas. Não conheci nenhuma mulher, até hoje, realmente feliz por ser gorda.

  4. Ótimo texto! Eu só não sei até que ponto a Gaby Amarantos aceitou participar do quadro por “pressão social e da fama”, afinal nunca vi ninguém botando defeito nas formas dela (coisa que a Preta, por outro lado, já sofreu, anos atrás), ou se o que a convenceu não foi mesmo o cachê, sabe? Afinal, o valor pago ao Ronaldo, na época em que ele participou do quadro, foi altíssimo… imagino que para os participantes dessa vez seja um pouco menor, mas ainda assim alto. Enfim, de qualquer modo, quaisquer que sejam as motivações… foi decepcionante.
    Gostaria de fazer somente uma ressalva relacionada ao assunto “saúde”… até onde eu sei, mesmo quando exames de sangue indicam que tudo está normal, pode haver outras complicações físicas (inclusive a longo prazo) ligadas ao peso, como problemas no joelho (vide Preta Gil) e na coluna… ENTRETANTO, creio que esses problemas estão mais ligados a uma musculatura fraca do que ao peso em si. Aqui, gostaria de lembrar de um bom exemplo de força física não necessariamente ligada à magreza: a medalhista olímpica Cheryl Haworth, do levantamento de peso, é uma mulher gorda, mas extremamente forte. Em casos assim, não há desculpas para médicos e outros “especialistas” travestirem sua gordofobia como “preocupação com a saúde”!

  5. Gostei do seu texto, só tenho um apontamento.
    Eu também achava a mesma coisa que vc.. era gordinha e sempre estava com tudo certinho. Entretanto, depois de alguns anos, veio a bomba.. eu tinha resistência à insulina, mas como meu pancreas tava ok, eu estava com a glicose no sangue normal, me sentindo feliz. Só que, escondidinho, segundo meu medico, ele foi parando de funcionar pelo excesso de gordura e hoje eu tenho diabetes. O problema é que eu nunca liguei pra essas coisas, porque achava que estava saudável com meus exames. E um dia, meu corpo me traiu.
    Ainda sou gordinha, mas faço exercicios, como direito, não pra ficar magra, mas para meu corpo ganhar força! O exercicio me ajudou tanto que até a dose do medicamento eu pude diminuir! ;)
    Pense nisso!

  6. Ah, com relação ao colesterol em pessoas magras, acontece mesmooo!
    Mas tem gente que é genético mesmo.. nem tem a ver com a alimentação!

  7. Gordofobia é uma merda. Mas acho estranho você dizer que excesso de gordura e saúde não estão relacionados. Imagino que você seja uma pessoa educada que sabe que a ciência médica não é achismo.

    • Sou sim, pessoa anônima!
      E por isso mesmo que eu digo sem medo: excesso de peso não é sinônimo de doença. Eu não disse que gordura e saúde não estão relacionadas, leia mais uma vez meu texto! A questão é que nem todo mundo que está acima do peso (como a Gaby Amarantos, exemplo real do meu texto, ou eu) tem problemas de saúde relacionados à alimentação. Existem mil outros fatores.
      Não estou aqui defendendo que todo mundo seja obeso mórbido, estou defendendo o fim dessa venda absurda de que só magro é saudável!

  8. Adorei o texto, me identifiquei de verdade. Mas sobre esse papo de saúde, temos que ter em mente que esses padrões de higiene e saúde corporal são historicamente construídos através de um biopoder capitalista, estatocêntrico e falocêntrico. Se eu quiser ter colesterol alto, ou pressão elevada, esse é um problema exclusivamente meu. E se eu quiser viver menos anos de vida em troca de comer todas as pizzas, sorvetes e chocolates, cervejas, vinhos e por aí vai? A maioria das mulheres abre mão de todas as delícias da mesa. E por quê? Por que o marido a quer pronta para gerar filhos, cuidar deles, cuidar da casa e quem sabe trabalhar. O patrão quer ela “produtiva” no sistema capitalista, o marido que ela “produtiva” na cozinha e nos afazeres do lar e, quem sabe, uma vez por semana, o barrigudo do marido a queira também “produtiva” de pernas abertas, esperando passivamente.

  9. Me parece que cerca de 70% da população brasileira tá acima do peso, e assim mesmo ainda somos massacrados com esse esteriótipo de ideal corporal.

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