Um vinho, uma cidade, uma conversa: como lidar com o amor livre?

Um vinho, uma cidade, uma conversa: como lidar com o amor livre?

Esse fim de semana, tive o incrível prazer de ir para Porto Alegre. Uma daquelas deliciosas viagens que, apesar de curta, vai ficar na minha cabeça por bastante tempo. Encontrar amigos, conhecer lugares, gostos, rostos. Mas, com certeza, o que mais marcou essa viagem foi um vinho, o frio e uma conversa que deixou uma pulga atrás da orelha. Não tínhamos nenhuma pretensão de fazer grandes teorias. Eu e a Jana Calu (vale conhecer o blog dela com outras amigas queridas: Românticas Somos Nós) já queríamos bater um papo. Somos amigas já faz tempo, sempre queremos conversar. E disso saiu a força para construir uma maneira nova de olhar o mundo.

A primeira pergunta que eu me fiz e sigo me fazendo é: onde queremos chegar com esse papo todo de relacionamento aberto? Quem me conhece, sabe que eu sou uma grande defensora da liberdade das pessoas, de que cada um tenha o controle do seu próprio corpo e de seus sentimentos. Mas depois de algum tempo observando os relacionamentos (tradicionais e não tradicionais), tirei algumas conclusões. E dividi isso e uma garrafa de vinho com a minha amiga. Porque podemos querer, dentro de nossas cabeças, chegar a um relacionamento onde cada um é livre pra viver o amor e a sexualidade a sua maneira. Onde cada um possa fazer aquilo que lhe convier, sem que isso possa parecer menos amor, menos querer bem.

Estou tentando construir um relacionamento em novos moldes. Um relacionamento livre. Mas tenho que confessar aqui uma coisa: a minha insegurança é um grande empecilho para que eu mesma possa me sentir livre. Para que eu mesma possa fazer aquilo que quero sem me sentir meio estranha, meio traindo o amor que sinto. E fico me perguntando porque eu sou tão insegura, porque eu não consigo simplesmente me libertar, me soltar, me jogar. E é preciso ter um olhar sobre o todo para pensar o micro. Provavelmente as poucas pessoas que leem meus textos até o fim já desistiram nessa altura, porque estou aqui rocamboleando para chegar ao cerne da questão. Mas se você leu tudo isso, não desista. Vou “direto ao assunto”: qual a diferença entre relações livres (ou amor livre) e consumo do outro? O que faz com que se relacionar como quiser não seja um “amor fast food”?

Pode parecer confuso, mas não é. O que eu quero colocar aqui, a questão que vem me angustiando faz tempo é que não se pode confundir amar todo mundo com amar somente a si mesmo. Não se pode querer que o seu prazer esteja acima do prazer dos outros. Tenho visto isso com certa frequência. Amigos que dizem que querem a liberdade e que se prendem ao consumo do corpo, do amor, do prazer do outro.

Não, não estou aqui defendendo que sexo é só em relacionamentos lindos e estáveis. Não. Estou defendendo que todo prazer tem que ter algum sentimento. E sentimento significa necessariamente também pensar no outro. Estou aqui dizendo que as pessoas a minha volta que, em sua maioria, defendem que querem seu direito de amar livremente, andam mais é não-amando quem querem, ao seu bel-prazer. Consumindo o corpo e, muitas vezes o amor, do outro como se fosse McDonald’s na hora da larica. No fim da noite, é preciso sair acompanhado. É preciso ter algo pra se lembrar no dia seguinte.

Aí eu pergunto: onde fica o gozo? Onde fica o orgasmo? Onde ficam as preliminares? Onde esquecemos o amor? Será que, na hora de tirar a roupa, também tiramos o carinho?

Claro que não vou aqui ficar julgando o que cada um sente. Mas saí dessa conversa pensando em mil coisas. Em que tipo de relação eu quero construir (com o meu atual companheiro e com quem mais eu me relacionar – durante e depois desse relacionamento). E não cheguei a conclusão nenhuma. Mas acho que pelo menos uma coisa eu tirei: quero construir relações. Quero que cada coisa que eu fizer, cada pessoa com quem eu ficar, cada vez que eu transar, seja com carinho, com respeito, com amor. Não quero viver de “mais uma trepada”. Não quero “garantir a noite”.

Aí talvez eu tenha chegado a alguma conclusão: a maior dificuldade de construir o amor livre é saber o que é amor.

6 Responses »

  1. Ontem mesmo li um texto que dizia que o amor é a nova utopia dos pos-modernos. Claro que tem um caminhão de conceitos a serem trabalhados, mas achei interessante e tem mto a ver com oq vc escreveu e o tanto que conversamos no frio acolhedor de PoA.

    Acho que ainda vai render muito: inquietações, textos, conversas e mudanças em nós.

  2. Acho que se você não quer ter um relacionamento aberto você não precisa ter um. Isso não funciona para todo mundo, o importante é saber o que se quer e respeitar a opinião alheia.

    • Eu acho que a construção de um relacionamento não tem que ter uma regra. Ou seja, não tem “jeito certo” de relacionar. Há quem viva bem de um jeito, há quem não o suporte. Existe muito mais uma pressão para que os relacionamentos sejam tradicionais do que abertos, mas esse nem é o cerne da questão.
      O cerne é, uma vez escolhida a maneira livre de se viver (e nem precisa estar em um relacionamento para isso), como vamos fazê-lo? Qual é o limite do seu prazer para dar prazer ao outro? Como vamos construir essa relação?

  3. Pingback: Uma lembrança nostálgica da FORT (ou a Introdução) | Românticas somos nós.

  4. Oi Gente! Este assunto muito me interessa!
    Conheço a Calu, mas acho que não conheço a Tati, não sei. Mas não importa.
    Tenho um exemplo muito claro disso que vc chamou de “fast food”. Um cara que só me procura pra transar. Só! Não quer saber de conversar quase nada, não se preocupa em nos proporcionar momentos divertidos e coisas parecidas. Sabe, um programinha qualquer, um filminho, um lanchinho, em suma, um carinho.
    E eu acho que o ponto crucial desse debate todo reside em uma palavra simples, porém maravilhosa: Amizade.
    Depois deste dia (em que, depois de uns beijos sem emoção, acabei dando um fora neste cara), cheguei a uma conclusão: quero amigos! Se vou transar com eles, que legal! Mas se não, tudo bem também! Mas quero amigos!
    E pra mim, se não há espaço para amizade, não há espaço pra sexo!
    Talvez eu esteja sendo muito radical, mas é a minha visão das coisas. Se for pra dar “uma trepada” apenas, como vc mesma disse, talvez seja melhor contratar um serviço sexual pago! Só que não… Beijos e sororidade!

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